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E se não precisarmos competir o tempo todo?

E se não precisarmos competir o tempo todo?

Redação: Rafael Guimarães Pereira | Revisão: Vânia Cristina Pereira Cabral

Há divergências e mesmo debates acalorados sobre competição atualmente. E normalmente as pessoas têm opiniões diametralmente opostas sobre o tema. Eu não vejo problema em divergir, penso que é a base do desenvolvimento, da evolução. O problema está, no meu ponto de vista, em desregular, ofender, agredir. Mas vamos buscar expandir um pouco as ideias.

Em seu estudo clássico Deutsch [1] distinguiu a cooperação (meu sucesso está ligado ao seu sucesso) da competição (meu sucesso está ligado ao seu fracasso). Isto desloca a pergunta simplista de “competição é boa ou ruim?” para “como os objetivos das pessoas estão estruturalmente relacionados?”.

Fertinger propõe que as pessoas se comparam uma com as outras em termos de características e capacidades. Este pensamente poderia ser exemplificado assim: “não basta eu estar indo bem, precisa estar melhor que fulano”. Esta comparação social interfere diretamente na saúde mental. Esta é uma associação importante que foi aprofundada por Morina et al [2]. McCarthy [3] coloca um possível relação de causa entre a competição e o bem-estar social ou o sofrimento psicológico. Sherman e Mehta [5] observaram que pessoas com baixo status ou em vias de perder status tem alto cortizol. Status elevado não significa automaticamente menor estresse. Porém podemos aventar a hipótese de um trabalho competitivo tornar o ambiente em um sistema permanente de manutenção de posição.

Vamos olhar agora sobre a ótica do defensor da competição. Ela existe na natureza, é parte da sobrevivência entre as espécies e, segundo Darwin, impulsiona a evolução biológica. Aí pode ter um erro de leitura pois o que sobrevive não é o mais forte ou que compete melhor mas o mais adaptado, tem muito mais a ver com resiliência. A competição está presente nas famílias, nas escolas, nos esportes, na política, na religião, no mundo dos negócios, por tudo. E para eles o mais competitivo faz subir a régua. E o pior, privar as novas gerações da competição está lhes tornando fracas.

Os opositores da competição dizem que é a origem dos males, que as gerações mais velhas de hoje como os Baby Boomers ou a geração X, forjados na competição, também adoecem por conta dela. Portanto defendem que as crianças de hoje sejam menos expostas à competição e mais à colaboração. Por exemplo, em eventos esportivos, que todos ganhem medalhas por participação e não hajam pódios. Alguns dizem que a competição pode levar à truculência e à violência. Pessoas não expostas à competição seriam mais felizes e saudáveis, sobretudo mentalmente.

Em uma meta análise Stanne, Johnson & Johnson [4] comparou estudos de competição e colaboração. A colaboração apresentou melhores resultados para indicadores sociais e de auto-estima. Talvez aí a gente possa mudar um pouco o enfoque, não ver somente competição versus colaboração mas, o que a competição faz com o vículo social, o sentimento de pertencimento e a avaliação que a pessoa faz de si mesma.

Eu honestamente penso que competição e colaboração não são mutualmente excludentes. Não acho que em nosso planeta, neste momento evolutivo, algumas espécies prescindam do mecanismo competitivo. E quem sabe mesmo entre os homo sapiens haverão aqueles que precisem, em dadas condições ou estágio da vida.

E para finalmente responder a pergunta inicial também penso que não devemos competir o tempo todo. Precisamos levar isto a sério para poder verificar com lucidez quais processos precisam da competição e quais os que se beneficiam mais da colaboração. Porque os detalhes importam muito, tais como: qual o tipo de competição, qual o motivo da competição, quais as regras “do jogo”, etc.

Ao pensarmos em colaboração, podemos ter alguns casos em que o resultado pode não funcionar, por exemplo: . Quando o resultado é coletivo mas as contribuições individuais não aparecem. Isto destrói a reciprocidade. . Coordenação excessiva com muitas reuniões, alinhamentos, mensagens, retrabalho … O grupo tende a ficar menos eficiente. . Quando há conflitos de interesse, as pessoas estão juntas mas possuem objetivos claramente diferentes. Então não funciona à menos que se balanceie os incentivos e objetivos. . Falta de segurança psicológica. A pessoa não vai compartilhar o que sabe se não sentir-se segura. . Colaboração compulsória. A pessoa pode estar fisicamente na equipe mas intimamente estar trabalhando/pensenizando contra ela.

Talvez a questão não seja escolher entre competir ou colaborar. Talvez seja desenvolver discernimento suficiente para perceber quando competir, quando colaborar e, principalmente, quando a nossa maneira de competir ou colaborar está produzindo efeitos que já não correspondem ao objetivo que pretendíamos alcançar.

#Liderança #ComportamentoOrganizacional #Nordosudo

[1] Deutsch, M. (1949). A Theory of Co-operation and Competition. Human Relations, 2(2), 129-152. https://doi.org/10.1177/001872674900200204

[2] Morina, N., Lemmel, F. K., Schlechter, P., & Hoppen, T. H. (2026). Unraveling Social Comparison in Mental Health: A Process-Based Model and a Systematic Review and Meta-Analysis of Current Evidence. Clinical Psychological Science, 0(0). https://doi.org/10.1177/21677026261442164

[3] McCarthy, P. A., & Morina, N. (2020). Exploring the association of social comparison with depression and anxiety: A systematic review and meta-analysis.

[4] Stanne MB, Johnson DW, Johnson RT. Does competition enhance or inhibit motor performance: a meta-analysis. Psychol Bull. 1999 Jan;125(1):133-54. doi: 10.1037/0033-2909.125.1.133. PMID: 9990847.

[5] Sherman GD, Mehta PH. Stress, cortisol, and social hierarchy. Curr Opin Psychol. 2020 Jun;33:227-232. doi: 10.1016/j.copsyc.2019.09.013. Epub 2019 Oct 19. PMID: 31765930.